Ilarie Voronca (1903–1946) foi um poeta e ensaísta de origem romena, figura central das vanguardas europeias do início do século xx. Após uma primeira fase ligada ao construtivismo e ao dadaísmo em Bucareste, fixou-se em Paris, onde escreveu maioritariamente em francês e participou activamente no surrealismo. A sua obra, marcada por uma imaginação visionária, uma intensa carga lírica e uma reflexão inquieta sobre a modernidade, o exílio e a condição humana, ocupa hoje um lugar singular entre a poesia de vanguarda e uma escrita de profunda sensibilidade existencial.
«Como um golfo o hospital envolve-te e abraça-te As serpentes da solidão lambem paredes e janelas O ar baba-se como um cão de caça A folha de temperatura indica-te o caminho das estrelas Cada um traz entre os dedos um termómetro Como um ramo de buxo no Domingo de Ramos As camas são alunas os cabelos lençóis sobre os seus ombros As vozes baixaram como rios durante a seca O tempo vestido com uma blusa branca passa ao teu lado As palavras são listradas como aves marinhas És um estrangeiro e eis-te um número no loto»