Escritos Diversos
Escritos Diversos
de Bernard Réquichot
tradução de Joana Jacinto
prefácio de Claire Viallat-Patonnier
paginação e grafismo de Paulo da Costa Domingos
Barco Bêbado, 2026
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«O espectador que se depara com uma criação comovente fala com frequência da ideia do seu autor. Mas a criação não começa com uma ideia.
No criador, é o espanto que gera. O espanto é um olhar novo: o olho mantém a sua função, mas essa função perdeu a sua importância; nasceu uma percepção secundária.
Ela surge involuntariamente do imperceptível, da desatenção às sensações fracas, como as do menino que, já trabalhado pelo instinto sexual, não conhece nem o nome nem o destino dos impulsos que se tramam dentro dele, mas que atraem cada vez mais a sua atenção e transformam a sua negligência, a sua distracção, em espanto.
Ao familiarizarmo-nos com os nascimentos que germinam nesse fundo mental, ao concentrarmos a nossa atenção nessas emoções, as percepções que ainda são apenas um pressentimento, destino, opacidade, transformam-se em evidências. A tenebrosa falta de atenção ao que germinava torna-se força manifesta, espanto, choque.
O espanto desenvolve-se em mestria, varia sobre si mesmo, desgasta-se e morre no hábito e na decepção de não encontrar mais as mesmas emoções nas mesmas coisas. Regressa a letargia infantil, a sensibilidade volta ao imperceptível; o círculo fecha-se. O nosso olhar migra sucessivamente do imperceptível e insensível para o perceptível e sensível, depois, pela gama do esgotamento e da desilusão, regressa ao insensível e insignificante; caminha como uma onda, em cumes e vales sucessivos.
A mestria pode florescer já provida de muitas decepções passadas, e o colapso da decepção pode ser forte como um choque em germe; o que evoca círculos onde esses factores se sucedem perpetuamente. Cada círculo percorrido convoca o percurso do seu semelhante, enquanto aquele que os efectua, impelido de desatenção em desatenção, de espanto em espanto, de decepção em decepção, fica mais forte após cada círculo.»
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