A Punição de Arles (1975) é um mergulho profundo e poderoso no tumulto interior de Emma Santos após a ruptura com o homem que lhe deu o nome literário. Um português aspirante a fotógrafo, manipulador e abusivo, com quem viveu doze anos e que a mantém aprisionada num ciclo de espera e abandono. Entre o delírio e a lucidez, o livro expõe a violência física e psicológica dessa ligação e a vertigem alucinatória desencadeada pela separação. Arles transforma-se no cenário íntimo dessa punição interior, no espaço onde escrever se impõe como única forma de sobrevivência. Obsessiva e visceral, a escrita de Emma explora os limites da linguagem e convoca os temas centrais da sua obra - a literatura, o aborto, a doença física e mental, a psiquiatria e o internamento - numa fusão entre autobiografia e ficção. A palavra escrita torna-se corpo em metamorfose, uma “segunda fala” que tenta reparar o corpo ferido, o amor perdido e a maternidade interrompida. Palavras incapazes de restituir a sua existência por inteiro, mas que testemunham o nascimento de Emma Santos como escritora maior.