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  • Uma Viagem Romântica a Moscovo

Uma Viagem Romântica a Moscovo

8,00 €  
IVA incluído

Uma Viagem Romântica a Moscovo
Carlos Alberto Machado

Depois da reunião de poemas dos anos 2000-2006 em Registo Civil (Assírio & Alvim, 2010), e das obras breves Por isso voltarei (2010) e Corpos (2011), Carlos Alberto Machado neste Uma viagem romântica a Moscovo aproxima-se de personagens e situações do “bairro”, sem abandonar os seus temas de sempre (a escrita, os corpos, a finitude).


Excerto

Ainda menino empurrado pela miséria desceu
da sua galiza até à solidão morna de lisboa
onde afocinhou na merda gasta dos outros
a pouco e pouco a comida rasca e o vinho
levantaram-lhe a pança muito acima da vergonha
agora no seu estabelecimento próprio esqueceu
o traçado miudinho dos amargos e humilhações talvez
também tenha esquecido a sua primeira taberna e agora
o seu ventre bojudo enchido por vinho martelado e feijoadas
empurra a sua voz tonitruante no café selecto
do bairro que diz ser o seu
“com marcha e tudo”
desde sempre.
[estabelecimento próprio]


Nota de leitura

A escrita constitui um dos tópicos mais imediatamente identificáveis neste livro, sobretudo como experiência da morte, que já no poema de abertura os livros anunciam na sua arrumação (p. 9) e que depois se representa em ato no poema «o homem do boné preto» (p. 17), para, finalmente, encerrar o livro com uma indicação sobre a condição material da própria escrita/morte (p. 45). Escrever é abrir caminho para a compreensão do mundo e da sua precariedade, defrontar-se com a voragem do tempo e com as marcas da sua passagem, tudo isso no silêncio em que as palavras registam as imagens do mundo em definitivo mortas para o real concreto de que partem.

E aí tanto entram as palavras que refazem a memória de um momento perdido no fundo da infância como as que assinalam a proximidade de um tempo atravessado pelas histórias miúdas de um quotidiano sem transcendência nem heroísmos, episódios da esquina, das várias esquinas, da vida e de um bairro suposto, figuras extra-territorializadas que sobrevivem ao deslizar dos dias refazendo sonhos apenas vislumbrados para lá do abismo da incomunicação (veja-se o belíssimo poema «o homem que imagino ucraniano»). O registo coloquial, popular, da linguagem que ocorre nalguns poemas é, por outro lado, um modo de assinalar o discurso do outro, integrando-o na coloquialidade e fluência discursiva que é já um traço do próprio sujeito poético e institui um efeito de proximidade e de «realismo» que é um das marcas desta poesia na sua generalidade.

Urbano Bettencourt (apresentação do livro na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, 3 de Novembro de 2012)

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