O CASTELO SURREALISTA DE MÁRIO CESARINY
O CASTELO SURREALISTA DE MÁRIO CESARINY
Mário Cesariny
apresentação: Afonso Dias Ramos, Emília Pinto de Almeida, João Pinharanda, José Manuel dos Santos, Marlene Oliveira
288 páginas (a cores)
Documenta, 2026
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Os passos alongavam-se com a elegância ferida de um animal em frémito e em fuga pelas ruas da cidade (Em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco). O vulto era o eco de uma voz perdida no tempo e encontrada no espaço. Na sua figura, estava inscrita a sua vida, com o que nela havia de génio e de tormento, de desejo e de desespero, de perigo e de persistência, de poeira levantada do chão e de poente deposto do céu.
Mário Cesariny chegava a um lugar e esse lugar mudava a sua posição no mapa. O corpo seco e transparente — quase de fantasma, às vezes de funâmbulo, outras vezes de feiticeiro — ganhava forma humana quando os seus gestos começavam a acompanhar as palavras que dizia com vertiginosa lentidão e os olhos que incandesciam no rosto, dando-lhe a luz selvagem de um fogo antigo, feroz e interior, como um segredo sulfuroso e sacrílego. […] Falava e o cigarro na sua longa mão ágil de prestidigitador era um ponteiro que apontava ao infinito e que ele respirava com a profundidade intensa de quem alcança um pensamento futuro que é tão antigo como um pensamento passado.
[José Manuel dos Santos]
A paixão do colectivo anima o trabalho polifacetado de Mário Cesariny de uma ponta à outra. Abordá-lo, seja a partir de que ângulo ou vertente for, implica tropeçar numa imensa cadeia de figuras que jamais cessam de se inscrever e de tomar parte. Caso de aguda fulgurância dos vasos comunicantes, são figuras que insistem e cruzam todos os planos em que aquele se desdobra, através deles instaurando um amplo circuito remissivo, numa espécie de vertigem onomástica.
[Emília Pinto de Almeida]
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