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Manucure
Rosalina Marshall

Intocável. O puro prazer do jogo das palavras; certeiros pensamentos rápidos como navalhas; a tua história, a minha história, o nome de Portugal; um humor acima das lágrimas; clarividente e revelador, uma demonstração do vigor único da poesia. Se isto não é grande poesia, venham os cães e rasguem-me as canelas. Obrigado por nos teres escrito tão bem.
[Pedro Paixão]

 
Excerto

quando abro a mala
o forro frio que já foi outro
surpreende-me sempre
inesperado odor
de cama de São José
onde me apalparam a perna
e disseram que não merecia levar gesso.
[“Os polidores da minha sensação”]

 
Nota de leitura

Eis uma revelação: Rosalina Marshall (n. 1976). Desconcertante, agudo, afirmativo, o seu livro de estreia apresenta-nos uma poetisa que soube criar do nada um espaço verbal, um modo de dizer, uma voz. Não há aqui versos a mais, a precisão é cirúrgica: “Todos os animais/ por dentro são o talho.” As imagens sucedem-se, entrechocam-se: “Chove açúcar nos meus olhos/ de que serve medicar um cadáver?/ do topo do edifício deixo cair/ o enorme cão de louça.” O ato de interpretar está sujeito a uma desconfiança irónica: “A hermenêutica fechou a porta/ depois de velha/ gostava de lá voltar/ e verificar as fechaduras.” Saltamos das observações do quotidiano para as memórias (o cheiro das merendas, o deslizar de patins no “cimento macio” de Montes Claros), mas a banalidade da vida traz sempre consigo uma aresta que corta: “De amor e seus danos/ estão os frigoríficos cheios/ quem nunca esqueceu/ uma alface, um iogurte ou um morto?” A escrita de Rosalina tanto se aproxima de Adília Lopes (“sinto um desconforto qualquer/ por usar soutien/ mas se não usasse/ era muito ordinária/ e os homens não gostariam de mim/ por ser demasiado fácil verem-me as mamas”) como da vertigem metafísica de Fiama Hasse Pais Brandão (“por trás dos manípulos das coisas/ escorrem fontes/ escorrem cisnes/ tudo em arco/ tudo em bandeira/ para o fluxo incontornável/ do rossio do universo/ onde permaneço desde a infância/ à espera de um táxi”). Síntese improvável, síntese feliz. Quase no fim, confessa: “Eu não sou má/ digo e escrevo coisas desagradáveis às vezes/ mas não sou má/ aproveito quando tenho uma caneta.” E aproveita muitíssimo bem. Que lhe seja leve, a caneta, e sempre à mão.»

[José Mário Silva, Expresso/Atual, 27 de Abril de 2013]

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