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Capa de livro com texto vermelho e preto e imagem desfocada de rosto branco
  • Capa de livro com texto vermelho e preto e imagem desfocada de rosto branco

Lufada de Ar

18,00 €
IVA incluído.

Lufada de Ar
de Annie Le Brun

tradução de Matteo Pupillo
posfácio de Eliane Robert Moraes
capa de João Pedro Trindade
paginação e grafismo de Paulo da Costa Domingos

Barco Bêbado, 2026

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«Isto é o lirismo. E é por isso que me parece desajustado conferir peso às palavras daqueles que hoje se comprazem em menosprezá-lo, ou inclusive em opor-se activamente a essa estranha energia que talvez seja a única força humana capaz de medir-se com a morte, já que dela dimana a percepção violenta que provoca as mais altas exaltações. Basta-me, de resto, notar que até os intelectuais mais em voga parecem ter-se deixado contagiar por esta nova desconfiança perante o lirismo. Tornou-se até uma marca de distinção – o que deveria inquietar-nos ainda mais quando o lirismo é, antes de tudo, a mais viva consciência do tempo, inscrita num corpo concreto, num corpo inigualável porque mortal. Será então a evocação deste corpo perecível, deste eterno “encantador putrefacto”, o que, no caso, tanto embaraçaria a decência cultural contemporânea? E, se assim for, não será tempo de olharmos de outra maneira para todos aqueles que nos enganam deliberadamente sobre uma matéria tão relevante?
Mas pedem-me para ignorar isso. Há muito que o precipício se abriu. Tudo o que ignoro, tudo o que gostaria de amar, esta vida que se desfaz em aparas sobre o abismo dos verões brancos, e estas sombras que correm à minha frente, aconselham-me vivamente a deixá-las à beira da estrada, já que aqui, ali, parece haver faróis na noite – pois claro, labirintos para todos – absolutamente, e depois realidades a que nos agarrarmos: a chuva na praia, o estrondo de uma porta num domingo à noite, o frio do Inverno, e até “cabelos negros” ou “olhos azuis”. Eis do que se alimenta a poesia de hoje. Já nem sequer procuram sufocar-nos sob as peles apodrecidas do futuro, da religião ou das gerações vindouras. E por que o fariam, se a pós-modernidade se gaba de já não encontrar motivo para se entusiasmar ou para se revoltar, preferindo exibir a sua obsessão pela indiferença? Nem me demoraria a sublinhar o ridículo da pose, se, sob a película transparente deste sensualismo gélido, não estivesse a mesma vida irrisória, com os choques esperados a surgir, com a sua habitual obscenidade, no meio de uma paisagem que se comprazem em chamar de hiper-realista.»