JOÃO BOTELHO: «FILMO UM TEXTO COMO SE FOSSE UM ROSTO»
JOÃO BOTELHO: «FILMO UM TEXTO COMO SE FOSSE UM ROSTO»
org. Golgona Anghel
autores:
Alexandra Lopes
António Guerreiro
Daniel Ribas
Elisabete Marques
Fernando Cabral Martins
Fernando Guerreiro
Golgona Anghel
João Dionísio
Manuel Portela
Maria Brás Ferreira
Mário Avelar
Paulo Cunha
Ricardo Vieira Lisboa
Sérgio Dias Branco
Susana Nascimento Duarte
O «ponto de vista» aliado à «grandeza da durée, […] do tempo e da composição» trabalham juntos em prol de uma poética da dissidência que assume uma divergência política e estética perante as leis cegas do «complot da ignorância» alimentado por uma economia de mercado em que se impõe, cada vez mais, o gosto indistinto das massas e uma ideia de cinema como divertimento. O cinema de João Botelho empenha-se em procurar esses ângulos novos para pensar a realidade, para inventar novos mapas de sentir, novos modos de percepção, novas subjectividades.
Botelho encontrou, nos textos literários e nas obras de vários artistas plásticos, as palavras e as imagens que concretizavam o destino da obra de arte moderna, isto é, que recusavam o paradigma da representação e a relação entre modelo e cópia que este pressupõe e que se votavam a uma experimentação livre, uma experimentação que visava atingir uma vida mais plena, mais intensa. Se o conceito de imagem é transversal à literatura e ao cinema, dificilmente as suas incorporações poderão ser reduzidas à homogeneidade de um sentido nos filmes de João Botelho. Autor de uma das mais vastas obras do cinema português, João Botelho foi (dis)seminando, ao longo de quarenta anos, mais de trinta filmes, entre longas e curtas-metragens. Destinado a uma carreira de engenharia mecânica, é o 25 de Abril que o liberta desse trilho para o entregar ao cinema.
[…]
Na sua natureza dialógica, o cinema de Botelho está ao serviço de um direito e de uma liberdade absoluta: tornar mais reais certos textos, dar-lhes um enquadramento singular, o seu melhor ângulo, o momento em que na fixidez de um plano algo de sensível começa a mexer-se. O texto literário não está nunca dado como adquirido: é preciso conquistá-lo por outros meios, guardando dele, não o que há de imutável, mas o que nele é movimento, emoção que engendra o seu objecto e uma máquina de olhares. Chamar-se-ia a isto um rosto? O rosto de um texto?
[Golgona Anghel]
Formato: 14,5 x 20,5 cm
Páginas: 304 (a cores)
EAN: 9789895681891
