ENOCH SOAMES
ENOCH SOAMES
Max Beerbohm
tradução e apresentação: Aníbal Fernandes
72 páginas
Sistema Solar, 2026
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A sua obra literária persiste sobretudo com um livro que reuniu diversos textos publicados anteriormente em jornais e revistas, todos a retratarem personagens que saíam da realidade para serem subtilmente corrompidas pela sua imaginação. Em 1919 começou por chamar-lhe Seven Men (Sete Homens), mas a edição de 1950 acrescentou-lhe mais dois, anunciando-os no novo título: Seven Men and Two Others (Sete Homens e Outros Dois).
É deste conjunto o seu texto mais célebre, a que chamou Enoch Soames, publicado pela primeira vez em 1916 no Century Magazine, uma curiosa e subtil cumplicidade entre a realidade e a ficção. A realidade é-nos sugerida por o narrador do texto ser o próprio Beerbohm e ter, no início da sua história, a companhia do pintor William Rothenstein, que realmente existiu (durante setenta e três anos, desde 1872 a 1945). Surge então, entre estes dois homens autênticos, o ficcionado escritor Soames que o Diabo leva ao salão de leitura do British Museum, numa tarde cem anos posterior a esse dia, para ele investigar o que a posteridade diz a seu respeito. Mas os pactos com o Diabo (sabemo-lo bem desde o Fausto de Goethe) acabam sempre de forma trágica.
Soames, uma ficção-realidade de Beerbohm, faz em 3 de Junho de 1897 uma viagem de cem anos até ao salão de leitura de uma realidade-ficção, e volta de lá irritado por uma história da literatura publicada em 1992 por um tal T.K. Nupton o considerar um escritor sem existência física, só pertencente à realidade ficcionada de Beerbohm.
Enoch Soames a oscilar desta forma problemática, a querer-se físico e humano na realidade exterior a Beerbohm, e a ser na sua posteridade avaliado como uma ficção de Beerbohm, a existir e a não existir, desaparece do mundo, vítima do pacto que fez com o Diabo, e ninguém dá por isso porque ele na verdade não passa, perante o mundo exterior à ficção-realidade de Beerbohm, de uma inexistência.
[Aníbal Fernandes]
