EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO - O 25 DE ABRIL DE MÁRIO CESARINY
EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO - O 25 DE ABRIL DE MÁRIO CESARINY
(fotografias)
Mário Cesariny
apresentação: José Manuel dos Santos
Documenta, 2026
128 páginas
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Mário Cesariny: «A foto a preto e branco é a dignidade da cor (como outrora se disse que o desenho é a probidade da pintura). Em Abril de 1974 saí para a rua a fotografar pessoas. Tudo Nunos Gonçalves! (Gentes anónimas, digo, porque os líderes, os “representativos”, já os vira a todos no Greco e no Rubens). Do mesmo passo, fotografei a Lisboa de Vieira…»
Em 25 de Abril de 1974, Mário Cesariny veio para a rua ver — e fotografar o que via. Esteve nos lugares onde os acontecimentos deram à vida a liberdade que durante meio século lhe foi negada.
Do Largo do Carmo ao Largo Trindade Coelho, da Rua da Misericórdia à Calçada do Sacramento, do Chiado à Praça de Luís de Camões, do Rossio aos Restauradores, os seus passos acompanharam o disparar contínuo da sua máquina fotográfica.
Nos dias seguintes, até ao dia inicial de Maio, das Avenidas Novas à Praça de Londres e ao Estádio 1.º de Maio, continuou a percorrer as ruas e os largos onde a libertação e a liberdade coincidiam, tornando-se reais. Dos rostos aos edifícios, das montras aos letreiros, dos militares aos civis, dos indivíduos às multidões, dos libertados aos libertadores, dos cravos às armas, em todos e em tudo a palavra e o gesto diziam a mesma alegria e o mesmo fervor.
Neste seu caminhar por Lisboa, o poeta apropria-se da cidade, que lhe fora longamente confiscada, proibida ou tornada clandestina, e que assim lhe é devolvida naquelas horas memoráveis. Há, por isso, na sucessão destas imagens, momentos em que a liberdade se torna erótica e em que o erotismo tem o nome da liberdade.
[José Manuel dos Santos]
