AL-MANĀK
AL-MANĀK
Regina Guimarães
80 páginas
Exclamação, Dezembro 2025
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Verão quente em terras de Basto, 50 anos depois do outro que me construiu e desconstrui.
Casa das Abegoarias, já sem alfaias agrícolas, nas imediações de Celorico, tão granítica como uma fortaleza.
Suficientemente vasta para acolher a minha numerosa família: companheiro, filhos, genros e nora, netos, irmãos, cunhados…
Rodeados de incêndios por tudo quanto era cume e encosta, acabámos por não abandonar aquele ponto de vista sobre o país em chamas.
Era demasiado raro estarmos reunidos sob o mesmo tecto, não podíamos desperdiçar a oportunidade de nos conhecermos e desconhecermos.
Eu recebia a má notícia dum carcinoma no pulmão direito e várias convocatórias para exames clínicos penosos.
Cismei longas horas: como fabricar esperança a partir do temor?
Todas noites se jogava tarot sobre fundo de montanha a arder.
Todas as noites se falava ardentemente de Gaza.
Os mais jovens rebentos da árvore familiar cresciam em beleza e diferença – e com que misterioso talento!
Este é o livro que me forcei a escrever como me obrigo à ginástica respiratória.
Para resistir à asfixia que se apodera do meu corpo e do corpo do mundo.
Regina Guimarães
