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Manon Lescaut

Cocteau: «Um perfume libertino de pó-de-arroz, vinho na toalha e cama desfeita. As duas personagens estão cobertas com o óleo que há nas penas do cisne, o que lhe permite chapinhar na água sem se conspurcar.»

 

No inferno destas duzentas páginas ouvimos da voz humana, e ao seu nível mais patético, os exorcismos, as ameaças, os gritos da revolta e do desespero, o sopro das encarniçadas forças de um herói de amor em luta contra as proibições da família, da religião, da ordem social e da sua própria fatalidade. Se a procura do absoluto é o que pedimos à poesia, o cavaleiro Des Grieux é um poeta da vida à procura de Manon Lescaut, o seu absoluto. Na posse de Manon Lescaut reside a sua única pacificação metafísica, a sua única justificação do universo. Com a amante desaparecida, só lhe resta morrer ou arrastar-se por uma má vida tão apodrecida como a morte. [Gilbert Lély]

 

O padre Prévost ficou-nos como romancista. Escreveu histórias alongadas por muitos volumes, como pedia o gosto da sua época, e em sete títulos intitulou-se «homem de qualidade que se retirou do mundo» para contar com habilidade formal enredos pretendidos como memórias, as de um marquês observador, ouvidor, condoído e apaixonado por singulares destinos que ao pé dele se denunciavam. Quando chegou ao sétimo, chegou também ao seu mais perdurável momento nas letras, o da história com nome extenso e que a popularidade reduziu a Manon Lescaut; por outros escritores muito apreciada, e conhecemos disto exemplos como os de Sainte-Beuve, Musset, Flaubert, Maupassant… entre os seduzidos pelo seu lado elegante e frívolo, pelo seu amor louco. Teve o desdém de Napoleão: «É bom para porteiras.» Teve a perplexidade de Montesquieu, que nas histórias só gostava da clareza dos bons e dos maus, e se perdia quando lhe davam misturadas tintas: «O herói é um gatuno e a heroína uma dissoluta.» Jean Cocteau foi dos melhores quando escreveu para este romance uma das suas frases: «Cortejo de archotes com jogadores, trapaceiros, bebedores, debochados, devassas da polícia. […] Um perfume libertino de pó-de-arroz, vinho na toalha e cama desfeita. As duas personagens estão cobertas com o óleo que há nas penas do cisne, o que lhe permite chapinhar na água suja sem se conspurcar.» [Aníbal Fernandes]

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