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Inferno

August Strindberg chegou a Inferno coleccionando sinais inexplicáveis que o perturbaram em Paris, em Saxen e em Lund, com eles fazendo um cerco às trivialidades do quotidiano. Esgotou-se num esforço esplendorosamente fracassado para confrontar as suas dúvidas com a inocência tranquila da realidade. Mas construiu um espectáculo que impressiona. A sua manipulação de sinais efémeros marca com dureza um destino supostamente regido por Potências que lhe não poupam dores nem o martírio da expiação. Para Strindberg estas Potências — imagem de um deus que ele não consegue definir — incitam-no a um refúgio na Ciência, mas por ironia encontrará aí outra vergasta que o incita a investir contra os homens; é um mundo de obsessões, com tréguas raras e curtas, derrotas sofridas com um masoquismo que o humilha e destina ao sangrento desastre das relações humanas. [Aníbal Fernandes]

 

O inferno? Fui educado no mais profundo desprezo pelo inferno, ensinado a tê-lo como fantasia atirada para o monturo dos preconceitos. Apesar disto não posso negar uma diferença, e reside nela a novidade da interpretação das chamadas penas eternas: já estamos no inferno. A terra é o inferno, prisão que uma inteligência superior construiu de forma a eu não poder dar um passo sem beliscar a felicidade alheia, e os outros não poderem ser felizes sem me fazer sofrer. […]

O fogo do inferno é o desejo do êxito; as Potências despertam-no e consentem que os malditos vejam os seus votos realizados. Mas atingido o objectivo e realizados os anseios, tudo se revela destituído de valor e a vitória é nula! É tudo vaidade das vaidades, nada mais do que vaidade. Depois da primeira desilusão, as Potências sopram o fogo do desejo, da ambição; mas o que mais atormenta não é o apetite insaciado; é, antes, a cobiça satisfeita que inspira o nojo de tudo. O Demónio, esse, também padece infinitamente a pena porque obtém quanto deseja no instante em que deseja, e nada mais tem para gozar. [de August Strindberg, Inferno]

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